RESUMO
O propósito desse artigo é avaliarmos o surgimento do protestantismo do
século XVI, analisarmos um quadro geral da teologia protestante no decorrer da
história, as principais ênfases teológicas que distinguem a visão
protestante-reformada da teologia medieval, bem como avaliarmos o quadro
teológico do século XXI e quais as influências da reforma para os dias de hoje.
INTRODUÇÃO
A Reforma Protestante é um movimento oriundo do século XVI. O fenômeno é
variado e complexo, que incluiu fatores políticos, sociais e também
intelectuais. Focaremos nosso estudo em analisarmos o movimento pelo prisma
religioso. Em primeiro lugar é importante ressaltar que o movimento não é um
fenômeno isolado, como alguns pensam. A reforma protestante não começou
simplesmente com o ato de fixação das noventa e cinco teses de Martinho Lutero
(1483-1546) nas portas da Igreja de Wittemberg no dia 31 de outubro de 1517,
embora esse foi o marco histórico do movimento. Na verdade outros homens ficaram
conhecidos por expressarem sua indignação diante da falência espiritual na vida
religiosa na idade média. Entre eles poderíamos citar Pedro Valdo (1140-1217),
John Wycliffe (1324-1384), John Hus (1372-1415), os valdenses, entre outros.
Todos esses homens são chamados apropriadamente de pré-reformadores[1].
Esses precursores estavam unidos no que diz respeito a sã doutrina, a moral e a
prática da palavra de Deus, em sua oposição aos abusos e imoralidades da Igreja
medieval. Uma quebra com o sistema segundo o qual funcionava a Igreja e um
retorno à estima e consideração pela Bíblia como Palavra de Deus marcaram estes
movimentos.
O elemento principal da reforma foi de caráter religioso, ou seja, a
busca de um novo entendimento sobre a relação entre Deus e os seres humanos. A
reforma protestante foi um movimento de reação aos problemas eclesiásticos da
idade média.
UM BREVE PANORÂMA HISTÓRICO
A delimitação da história é bastante
complexa, no entanto podemos dividi-la em quatro blocos gerais: O primeiro
deles é a história antiga que vai desde o ano 1 da era cristã e estende-se até
o ano 476 com a queda da Roma Ocidental. O segundo bloco é o que chamamos de
história medieval, que vai do ano 476 a 1453 com a queda de Constantinopla
Oriental. O terceiro bloco é o que chamamos de história moderna que abrange do
ano 1453 a 1789 com o advento da revolução francesa. O último bloco é o que
chamamos de história contemporânea que são os períodos pós-revolução francesa
até os dias de hoje. A reforma protestante é um movimento do segundo bloco
histórico, ou seja, a idade média. Boa parte desse período ficou conhecido como
a idade das trevas, no entanto não podemos dizer que toda a idade média viveu
em trevas espirituais. A decadência acontece mais precisamente nos séculos XIV
e XV. O abuso papal e a conduta imoral era vivenciada tanto por leigos quanto
pelos clérigos, a graça se tornou uma religião barata comercializada por meio
de um complexo sistema de votos, jejuns, peregrinações, missas, a venda de
relíquias, entre outras. Na idade média acreditava-se que para alcançar a
salvação, o fiel tinha que se submeter as ideias e tradições da Igreja[2],
sobre a autoridade do papa e da Igreja, ideia esta que foi rejeitada posteriormente
pelos reformadores protestantes do século XVI. Entre essas tradições estava a
prática da venda de indulgências
.O ensino era que a Igreja oficial mantinha a custódia dos méritos
adquiridos pelos Santos do passado que haviam excedido em boas obras
necessárias para a salvação. Consequentemente esses méritos se tornavam uma
fonte para aqueles que estavam deficientes espiritualmente. Essa transferência
de méritos era feita através de um certificado assinado pelo papa (Leão X)
mediante pagamento financeiro, ou seja, a salvação era comprada por dinheiro e
bens materiais. O dinheiro adquirido foi usado para a construção da basílica de
São Pedro, e também dividido entre os banqueiros mais talentosos, entre eles
estava, Johann Tetzel, um dos principais na venda de indulgências. Na venda
dessas indulgências haviam variedade de preços e condições, mas Tetzel criou um
método para atingir tanto os ricos quanto os pobres e é dentro desse contexto
que Tetzel intensifica o ensino a respeito do purgatório. [3]
O perdão de pecados também poderia
ser recebido através do sacramento da penitência, quando o sacerdote (padre)
representando Jesus absolvia o pecador que confessava seus pecados e dava uma
contribuição financeira para a Igreja como pagamento.
Todos os desvios doutrinários da
Igreja da idade média foram motivos que levaram os reformadores a se revoltar
contra a Igreja e o abuso papal. Lutero não tinha a intenção de dividir a
Igreja, mas o único objetivo de Lutero era trazer a Igreja de volta ao ensino
das Escrituras, para restaurar a pureza da fé e do Evangelho de Jesus Cristo.
Apesar de Lutero em nenhum momento ter a intenção de fundar uma nova Igreja, no
entanto o rompimento se tornaria inevitável. A redescoberta paulina da
justificação pela fé levou o monge agostiniano a protestar com veemência a
venda das indulgências. Costuma-se fixar o marco oficial da reforma no dia 31
de outubro de 1517, quando Lutero tornou públicas as suas 95 teses sobre o
tema, fixando-as na porta do castelo de Wittemberg, na Alemanha. Quando
questionado a respeito das consequências do movimento e o impacto da reforma na
Europa, Lutero declarou: “simplesmente ensinei, preguei, escrevi a palavra de
Deus, não fiz mais nada, a palavra de Deus fez tudo”
Fica evidente haver uma completa ruptura no pensamento a respeito da
autoridade da Igreja e o papel do evangelho na vida dos fiéis
O catecismo da Igreja Católica no
parágrafo 82 diz o seguinte:
“Tanto a Escritura como a tradição devem ser aceitas e honradas com
iguais sentimentos de devoção e reverência[4]
Em oposição ao fundamento de autoridade da Igreja oficial, Martinho
Lutero escreveu na sua tese de número 62
O vedadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da Glória da
Graça de Deus
O movimento da reforma protestante ficou conhecido pelo apelo as
Sagradas Escrituras como única regra de fé e prática, o que consequentemente
derrubou todos os ideais doutrinários da tradição da Igreja Católica.
UM BREVE RESUMO SOBRE A VIDA DE MARTINHO
LUTERO
Martinho Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483.
Sua família era pobre e ele lutou com muita dificuldade para estudar.
Preparava-se constantemente para ingressar no curso de Direito, quando resolveu
tornar-se monge. Entrou para o mosteiro agostiniano de Erfurt, em 1505, antes
de completar 22 anos de idade. Dois anos depois foi ordenado sacerdote católico.
No ano seguinte foi para Wittenberg preparar-se para ser professor na
recém-criada universidade daquela cidade. Foi lá que Lutero dedicou-se ao estudo
das Escrituras. Ao descobrir a graça do Evangelho, entregou-se a Jesus Cristo,
pela fé, e encontrou a paz e a segurança de salvação. No dia 31 de outubro
de 1517, Martinho Lutero afixou, na porta da capela de Wittenberg, as suas 95 teses.
Era o início da Reforma. Lutero tentou reformar a igreja, mas Roma não quis se
reformar, antes o perseguiu violentamente. Em 1520, o papa Leão X, incomodado,
escreveu um documento exigindo a retratação de Lutero, sob pena de excomunhão.
Em praça pública, Lutero respondeu ateando fogo ao documento do papa. Foi
instaurada uma crise política e religiosa na Alemanha. Lutero foi convocado a
se retratar. Em 1521, teve que se esconder
durante 10 meses no castelo de Wartburgo, perto de Eisenach, para não ser
morto. Em 28 de janeiro deste mesmo ano, uma assembleia, convocada pelo
imperador Carlos V, julgava Martinho Lutero por crimes cometidos contra a
Igreja Católica, foi a chamada dieta de Worms. Foi excomungado em 1521 por
traição. Depois voltou para Wittenberg,
de onde comandou a expansão do movimento de reforma. Lutero faleceu em
Eisleben, no dia 18 de fevereiro de 1546.
Lutero,
escreve em Worms em 18 de Abril de 1521:
“A não ser que alguém me convença pelo testemunho da escritura Sagrada
ou com razões decisivas, não posso retratar-me, pois não creio nem na
infabilidade do papa, nem dos concílios, porque é manifesto que frequentemente
se tem equivocado e contradito”...” Fui convencido pelos argumentos bíblicos
que acabo de citar a minha consciência está presa na palavra de Deus. Não posso
e não quero revogar, porque é perigoso e não é certo agir contra a sua própria
consciência. Que Deus me ajude”
AS DOUTRINAS DISTINTIVAS DA REFORMA
PROTESTANTE
Os teólogos protestantes ressaltaram
em primeiro lugar a autoridade primária única e insuperável da palavra de Deus
em contraste com a autoridade da tradição da idade média. No entanto valorizavam
categoricamente a interpretação dos teólogos do passado, especialmente os pais
da Igreja e dos primeiros concílios gerais, insistiram que todas as decisões
doutrinárias deveriam estar fundamentadas nas Escrituras, conforme foram
escritas nas línguas originais. Não havia a intenção de criar uma teologia nova
ou distinta, mas em restaurar a centralidade das verdades bíblicas que haviam
se perdido ao longo da história da idade média.
Os reformadores redescobriram a Bíblia, que no final da Idade Média era
um livro pouco acessível para a maioria dos cristãos. As missas eram
ministradas em Latim e o acesso era restrito ao clérigo. No entanto, os
reformadores estudaram, pregaram e traduziram a Palavra de Deus, tornando-a
conhecida das pessoas na língua do povo. Eles afirmaram que a Escritura deve
ser o padrão básico de fé e da vida cristã. A ênfase na bíblia como regra de fé
única e suficiente, inerrante, infalível e autoritária ficou cunhada como sola
scriptura[5]
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar,
para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de
Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. (2 Timóteo 3.16-17)
Em segundo lugar, a reforma
protestante enfatizou a doutrina da justificação pela fé somente, que na visão
de Lutero consiste na espinha dorsal da Igreja. Lutero foi grandemente
impactado com o entendimento da carta do apóstolo Paulo aos Romanos o que
posteriormente deu início a uma revolução religiosa.
Em 1515, dois anos antes do marco inicial da reforma protestante, Lutero
começou a expor a carta de Romanos aos seus alunos e foi nesse momento que ele
entendeu a palavra justiça em Romanos 1.17. Todo o fardo legalista que a Igreja
católica lançava sobre os fiéis caiu por terra e um extraordinário fervor
espiritual começou a surgir na vida de Lutero. Martinho Lutero diz:
Eu fui de fato cativado por um extraordinário fervor para entender Paulo
na epístola aos Romanos. Mas até então uma única palavra no capitulo 1
versículo 17 me perturbava “porque no evangelho é revelada a justiça de Deus. Eu
odiava aquela palavra, sim, eu não amava, mas odiava aquela palavra que pune
pecadores “JUSTIÇA”. Como se não bastasse Deus punir miseráveis pecadores por
causa do pecado original e pela lei, agora eu era levado a acreditar que Deus
tivesse que me ameaçar com a sua Ira justa sobre mim através do evangelho de
Jesus Cristo.
Lutero persistentemente golpeava aquela passagem querendo entender o que
Paulo queria dizer com a palavra Justiça. Foi quando ele entendeu perfeitamente
a intenção do apóstolo Paulo e chega à seguinte conclusão:
Finalmente meditando arduamente de dia e de noite consenti o contexto
das palavras do apóstolo Paulo. Porque no evangelho é revelada a justiça de
Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé. Agora entendi que o justo
vive por fé e que a fé é um dom que Deus que derrama sobre o pecador manifestando
a justiça perfeita de Cristo. A partir daí Aquela passagem tornou-se para mim o
portão do paraíso.
Tendo em vista a obra expiatória realizada por Jesus Cristo na cruz,
Deus justifica o pecador que crê, isto é, o declara justo e aceita-o como
justo, possuidor não de uma justiça própria, mas da imputação da justiça de
Cristo. Essa verdade foi afirmada pelos reformadores em três expressões
latinas: Solus Cristus, Sola gratia e
Sola Fide.
A terceira abordagem teológica da
reforma protestante foi a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes.
A Igreja Medieval era dividida em duas partes: de um lado estava o clero, os
religiosos, a hierarquia e a instituição eclesiástica; do outro lado estavam os
fiéis, os leigos e os cristãos comuns. Acreditava-se que a salvação e o perdão
de pecados dependia da ministração dos sacerdotes e do clérigo religioso. Sem a
interseção do ministro religioso era praticamente impossível adquirir perdão
dos pecados e a comunhão com a Igreja.
À luz das Escrituras, os
reformadores eliminaram essa distinção. Todos, ministros e fiéis, são o povo de
Deus e sacerdotes do Altíssimo. Como tais, todos têm livre acesso à presença do
Pai, tendo como único mediador o Senhor Jesus Cristo o grande sumo sacerdote.
Esse entendimento foi encontrado mais especificamente a luz do livro de Hebreus.
Tendo, pois, irmãos, ousadia
para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus,Pelo novo e vivo caminho que ele
nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,E tendo um grande sacerdote
sobre a casa de Deus,Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de
fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água
limpa,Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que
prometeu. Hebreus
10:19-23
A ruptura teológica certamente foi o âmago da oposição protestante na reforma
do século XVI. Lutero, bem como aqueles que vieram após ele lutaram pelas
doutrinas fundamentais da fé cristã. São mais de 500 anos que nos separam de
Martinho Lutero. De lá para cá as doutrinas defendidas pelos reformadores vem
sofrendo alterações e isso tem gerado o anseio por uma nova reforma na Igreja
evangélica protestante do século XXI
O QUADRO TEOLÓGICO DO SÉCULO XXI
Em
linhas gerais a reforma protestante do século XVI foi um movimento de
restauração espiritual profunda. A Igreja necessitava de uma restauração
doutrinária, bem como abandonar os desvios que por séculos havia corrompido a
Igreja. O que faremos a seguir consiste em analisarmos paralelamente o que
aconteceu na idade média, os importantes ensinos resgatados pelos reformadores
e a situação teológica dos nossos dias.
Em primeiro lugar a reforma protestante foi
uma reforma na Igreja. A Reforma envolveu, principalmente, a vida
espiritual das pessoas. Martinho Lutero era um monge católico de ordem
agostiniana, que, a partir do estudo das Escrituras, descobriu a verdade de que
o justo deveria viver pela fé (Rm 1.17). Nas palavras de Lutero:
Precisamos entender a
doutrina da Justificação pela fé porque ela é o raio de luz que brilha para
entendermos todas as outras doutrinas.
É impressionante, mas hoje estamos vivendo o mesmo estado de
trevas espirituais da Igreja medieval. Igrejas denominadas cristãs estão
ressuscitando o ensino da justificação mediante o pagamento de indulgências. A
ênfase foi apenas invertida, mas a ideologia continua a mesma. Aliás, não há
nada novo debaixo do céu e o coração do homem continua o mesmo. O que na idade
média era vendido no céu, hoje é vendido na terra. Promessas de prosperidade e
isenção de problemas nada mais são do que autoindulgências disfarçadas de
Evangelho. O que a teologia indulgente faz é simplesmente oferecer o desejo do
coração das pessoas. O cristão da idade média ansiava por vida eterna, no
entanto o cristão da pós-modernidade anseia por prosperidade terrena e material.
Qual a solução para isso? Vender a preço de Evangelho aquilo que o homem deseja
com o seu coração. É isso que a indulgência faz com as pessoas. Precisamos
ensinar, pregar e escrever a respeito da justificação pela fé somente e
resgatar o ensino da reforma protestante do século XVI.
Em segundo lugar o movimento
da reforma protestante trouxe de volta a centralidade das Sagradas Escrituras
como única regra de fé e prática. Não obstante é comum observarmos Igrejas que
acrescentaram tantos outros ensinos no que diz respeito a autoridade da Igreja.
O princípio que Deus opera por meio da palavra e somente por meio dela se
perdeu totalmente nos nossos dias. Infelizmente a maioria das Igrejas não dão o
devido valor para a suficiência da palavra de Deus e quando não temos a
essência da palavra de Deus como autoridade da Igreja começamos a perder a
essência do Evangelho e o resultado é que começamos a trocar o Evangelho de
Jesus Cristo por entretenimento e misticismo. Nossa geração tem uma tendência
absurda de ser levada por um tipo de misticismo pagão, ou seja, uma religião
supersticiosa que mistura uma pitada de catolicismo medieval com psicologia
humanista cristianizada. Isso é visível na frenética busca por espiritualidade sensitiva,
a busca de um deus que se possa sentir, tocar e abraçar, em outras palavras, um
tipo de religião introspectiva onde a expectativa consiste em criar uma
atmosfera de experiências pessoais em detrimento da palavra de Deus. Isso pode
ser respondido com o brado Sola Scriptura, ou seja, nós só temos a palavra de
Deus como única regra de fé e prática.
Em terceiro lugar,
precisamos resgatar a visão de que somente Cristo é o mediador entre Deus e os
homens. Uma
religião de êxtase não necessita de mediação. É por isso que determinadas
Igrejas enfatizam tanto a obra do Espírito Santo em detrimento da cruz de
Cristo. O que eles querem na verdade é ter um encontro direto com o divino
através das experiências, mas sem a necessidade de mediador. A teologia não pode estar centrada no homem,
mas em Cristo. A igreja moderna, assim como a Igreja romana do século
XVI tem colocado o homem no centro, como se ele fosse a razão do universo. Eram
as necessidades do homem que precisavam ser atendidas e não a vontade de Deus
expressa em sua Palavra. Vemos isso claramente na Teologia da confissão
positiva, no humanismo secular do século XXI e na gama de interpretações
carnais que as pessoas tem feito das escrituras. No entanto Cristo é o tema
central das Escrituras e da verdadeira Teologia. Quando a Palavra de Deus é
tomada como regra de vida, obrigatoriamente temos Cristo como centro de nosso
viver e como único mediador.
Em quarto lugar, precisamos resgatar a visão
de que a salvação é única e exclusivamente pela graça soberana de Deus . A Igreja Romana ensinava que a graça de Deus
era concedida ao crente à medida em que ele cooperava com ela. Havia um
sinergismo cooperativo entre Deus e os homens.
Os reformadores se levantaram contra isso afirmando a verdade bíblica de
que a graça é imerecida e que Deus é soberano no plano de salvação. Não se
trata de uma fé que seja “cooperativa”, mas da fé que nos é concedida por Deus
pela graça (Ef 2.8). Ao longo da história moderna tem surgido um entendimento
errôneo de que o homem possui livre-arbítrio e que as decisões humanas podem
influenciar no plano de salvação. No entanto uma superficial olhada na história
vai nos mostrar que tal entendimento não tem fundamento teológico. Há um
equívoco em nossos dias de se pregar uma graça divina que seja submissa à
vontade do homem. Dizem os pregadores que, pedindo com insistência, fazendo
jejuns, correntes, e coisas parecidas, Deus vai responder ao desejo dos homens.
Dificilmente se fala sobre a condição miserável do homem em sua natureza
pecaminosa e sua necessidade total da graça de Deus. Precisamos urgentemente
reafirmar o grito protestante de que somente pela graça somos salvos e que isso
não vem de nós, pois é um dom de Deus (Ef 2.8).
Em último lugar devemos perguntar se a
teologia do século XXI reconhece o fato de que Deus é digno de toda adoração. A reforma protestante declarou em alto bom
tom o Soli Deo Glória, ou seja, não ao papa, não a Igreja, não a denominação e
não a hierarquia da Igreja, mas a Deus toda honra e toda Glória. É isso que
transparece em nossos cultos? Neles, exalta-se o nome de Deus, ou o “grande”
pregador, o pastor que cura, ou conjunto musical? Os pregadores, em seus
púlpitos, estão preocupados em render glória a Deus por meio de sua pregação ou
somente em fornecer mensagens “confortadoras” para o rebanho, que sirvam como
um momento de “relaxamento” e “descontração”? Devemos ter em mente que toda
glória deve ser dada somente a Deus.
Em suma, Nós estamos vivendo um tempo em que a
palavra de Deus não existe, Cristo não é suficiente, a fé se tornou um produto
de comércio, a graça de Deus foi substituída por méritos humanos e a Glória de
Deus tem sido trocada pela exaltação de líderes espirituais que inventam a cada
dia um tipo de posição e hierarquia diferente.
Nas
palavras do Teólogo Michael
Horton:
“Prega a Escritura é pregar a Cristo; pregar
é Cristo é pregar a cruz; pregar a cruz é pregar a graça; pregar a graça é
pregar a justificação; pregar a justificação é atribuir o todo da salvação à
glória de Deus e responder a essa Boa Nova em grata obediência por meio de
nossa vocação no mundo.”
CONCLUSÃO
Lutero se levantou no século XVI contra os abusos da
Igreja Católica. Lutero foi um homem ousado que não sucumbiu ao erro numa época
de apostasia. Lutero continua falando pelos corredores da história. Tudo
resulta na Glória de Deus. Todas a glória é devida ao seu nome. Deus revelou-se
através das Escrituras, enviou seu Filho para morrer no lugar do seu povo,
concedendo, somente por sua graça, a salvação pela fé. Os alcançados pela graça
divina rendem louvores em espírito e em verdade ao Deus Todo-Poderoso. Esse é o
âmago do Evangelho de Jesus Cristo, o mesmo Evangelho defendido pelos
apóstolos, pelos Pais da Igreja, pelos reformadores e que devem ser defendidos
no século XXI. Que Deus levante novos “Luteros” na nossa geração para combater
o erro e a mentira duma geração que perverteu as verdades do Evangelho. Que
possamos bradar o Soli Deo Glória para que o nome de Jesus Cristo seja exaltado
e elevado. Ao Deus trino seja toda honra, glória e louvor agora e para todo o
sempre, amém!
___________________________________
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Fernando - Palavra viva - revista –
Criação e Redenção, Lição 7,8, pg 25,29-31
BEEKE, Joel.R. Vivendo para a Glória de Deus, Editora Fiel, 2008
HORTON, Michael - Os Sola’s da Reforma”,
Editora Cultura Cristã, 1999
MATOS,
Alderi Souza de – Fundamentos da teologia histórica – São Paulo: Mundo Cristão,
2008
[1] No
que diz respeito a pré-reforma e seus principais precursores, estudaremos mais
detalhadamente no módulo História da Igreja II
[2] A
tradição é progressiva e no decorrer da história fica evidente a queda
gradativa da Igreja e a apostasia doutrinaria do clérigo
[3] Entre
os anos de 1460 a 1470 o papa Sixtus IV declarou os benefícios das indulgências
daqueles que haviam ido para o purgatório. O purgatório na visão católica é o
lugar de purificação para a alma daqueles que morrem, onde a alma
dos que cometeram pecados leves acabam de purgar suas faltas, antes de ir para
o paraíso.
[4]
CIC 82
[5] A
resposta protestante aos abusos da Igreja Católica estabeleceu em cinco gritos
de guerra ou lemas da Reforma, centralizados na palavra Solus, que significa
somente em Latim. Esses lemas serviram para contrastar o ensino protestante das
crenças católicas medievais.

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