Recomendo a Leitura e reflexão.
Em Cristo!
Flávio Franco de Oliveira
Flávio Franco de Oliveira
Quando olho o atual cenário da igreja
evangélica brasileira – estou usando o termo “evangélica” de maneira ampla –
confesso que me sinto incapaz de prever o que vem pela frente. Há muitas e
diferentes forças em operação em nosso meio hoje, boa parte delas conflitantes
e opostas. Olho para frente e não consigo perceber um padrão, uma indicação que
seja, do futuro da igreja.
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| Rev. Augustus Nicodemus Lopes |
Há, em
primeiro lugar, o crescimento das seitas neopentecostais. Embora estatísticas
recentes tenham apontado para uma queda na membresia de seitas como a Universal
do Reino do Deus - que ressurge das cinzas com o "templo de Salomão"
- , outras estão surgindo no lugar, como na lenda grega da Hidra de Lerna,
monstro de sete cabeças que se regeneravam quando cortadas. A enorme quantidade
de adeptos destes movimentos que pregam prosperidade, cura, libertação e
solução imediata para os problemas pessoais acaba moldando a imagem pública dos
evangélicos e a percepção que o restante do Brasil tem de nós. Na África do Sul
conheci uma seita que mistura pontos da fé cristã com pontos das religiões
africanas, um sincretismo que acaba por tornar irreconhecível qualquer traço de
cristianismo restante. Temo que a continuar o crescimento das seitas
neopentecostais e seus desvios cada vez maiores do cristianismo histórico,
poderemos ter uma nova religião sincrética no Brasil, uma seita que mistura
traços de cristianismo com elementos de religiões afro-brasileiras, teologia da
prosperidade e batalha espiritual em pouquíssimo tempo.
Depois
há o movimento “gospel”, que mostrou sua popularidade ao ter o festival
“Promessas” veiculado pela emissora de maior audiência do país. Não me preocupa
tanto o fato de que a Rede Globo exibiu o show, mas a mensagem que foi passada
ali. A teologia gospel confunde “adoração” com pregação, exalta o louvor como o
principal elemento do culto público, anuncia um evangelho que não chama
pecadores e crentes ao arrependimento e mudança de vida, que promete vitórias
mediante o louvor e a declaração de frases de efeito e que ignora boa parte do
que a Bíblia ensina sobre humildade, modéstia, sobriedade e separação do mundo.
Para muitos jovens, os shows gospel viraram a única forma de culto que
conhecem, com pouca Bíblia e quase nenhum discipulado. O impacto negativo da
superficialidade deste movimento se fará sentir nesta próxima geração,
especialmente na incapacidade de impedir a entrada de falsos ensinamentos e
doutrinas erradas.
Notemos
ainda o crescimento do interesse pela fé reformada, não nas igrejas históricas,
mas fora delas, no meio pentecostal. Não são poucos os pentecostais que têm
descoberto a teologia reformada – particularmente as doutrinas da graça, os
cinco slogans (“solas”) e os chamados cinco pontos do calvinismo. Boa parte
destes tem tentado preservar algumas idéias e práticas características do
pentecostalismo, como a contemporaneidade dos dons de línguas, profecia e
milagres, além de uma escatologia dispensacionalista. Outros têm entendido –
corretamente – que a teologia reformada inevitavelmente cobra pedágio também nestas
áreas e já passaram para a reforma completa. Mas o tipo de movimento, igrejas
ou denominações resultantes desta surpreendente integração ainda não é
previsível.
O
impacto das mídias sociais também não pode ser ignorado. E há também o número
crescente de desigrejados, que aumenta na mesma proporção da apropriação das
mídias sociais pelos evangélicos. Com a possibilidade de se ouvir sermões,
fazer estudos e cursos de teologia online, além de bate-papo e discipulado pela
internet, aumenta o número de pessoas que se dizem evangélicas mas que não se
congregam em uma igreja local. São cristãos virtuais que “freqüentam” igrejas
virtuais e têm comunhão virtual com pessoas que nunca realmente chegam a
conhecer. Admito o benefício da tecnologia em favor do Reino. Eu mesmo sou
professor a quinze anos de um curso de teologia online e sei a benção que pode
ser. Mas, não há substituto para a igreja local, para a comunhão real com os
santos, para a celebração da Ceia e do batismo, para a oração conjunta, para a
leitura em uníssono das Escrituras e para a recitação em conjunto da oração do
Pai Nosso, dos Dez Mandamentos. Isto não dá para fazer pela internet. Uma
igreja virtual composta de desigrejados não será forte o suficiente em tempos
de perseguição.
Eu
poderia ainda mencionar a influência do liberalismo teológico, que tem aberto
picadas nas igrejas históricas e pentecostais e a falta de maior rapidez e
eficiência das igrejas históricas em retomar o crescimento numérico,
aproveitando o momento extremamente oportuno no país. Afinal, o cristianismo
tem experimentado um crescimento fenomenal no chamado Sul Global, do qual o
Brasil faz parte.
Algumas
coisas me ocorrem diante deste quadro, quando tento organizar minha cabeça e
entender o que se passa.
1 –
Historicamente, as igrejas cristãs em todos os lugares aqui neste mundo
atravessaram períodos de grande confusão, aridez e decadência espiritual.
Depois, ergueram-se e experimentaram períodos de grande efervescência e
eficácia espiritual, chegando a mudar países. Pode ser que estejamos a caminho
do fundo do poço, mas não perderemos a esperança. A promessa de Jesus quanto à
Sua Igreja (Mateus 16:18) e a história dos avivamentos espirituais nos dão
confiança.
2 –
Apesar de toda a mistura de erro e verdade que testemunhamos na sincretização
cada vez maior das igrejas, é inegável que Deus tem agido salvadoramente e não
são poucos os que têm sido chamados das trevas para a luz, regenerados e
justificados mediante a fé em Cristo Jesus, apesar das ênfases erradas, das
distorções doutrinárias e da negligência das grandes doutrinas da graça. Ainda
assim, parece que o Espírito Santo se compraz em usar o mínimo de verdade que
encontra, mesmo em igrejas com pouca luz, na salvação dos eleitos. Não digo
isto para justificar o erro. É apenas uma constatação da misericórdia de Deus e
da nossa corrupção. Se a salvação fosse pela precisão doutrinária em todos os
pontos da teologia cristã, nenhum de nós seria salvo.
3 –
Deus sempre surpreende o Seu povo. É totalmente impossível antecipar as
guinadas na história da Igreja. Muito menos, fazer com que aconteçam. Há
fatores em operação que estão muito acima dos poderes humanos. Resta-nos ser
fiéis à Palavra de Deus, pregar o Evangelho completo – expositivamente, de
preferência – viver uma vida reta e santa, usar de todos os recursos lícitos
para propagar o Reino e plantar igrejas bíblicas e orar para que nosso Deus
seja misericordioso com os seus eleitos, com a Sua igreja, com aqueles que Ele
predestinou antes da fundação do mundo e soberanamente chamou pela Sua graça,
pela pregação do Evangelho.
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Fonte: O Tempora! O Mores!

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