O
evangelho de Jesus Cristo é o maior de todos os tesouros dados à igreja e ao
cristão como indivíduo. Não é uma mensagem
entre muitas, mas a mensagem
acima de todas as outras. É o poder de Deus para a salvação e a maior revelação
da multiforme sabedoria de Deus aos homens e aos anjos. É por essa razão que o
apóstolo Paulo deu primazia ao evangelho em sua pregação, esforçando-se com
tudo que tinha para proclamá-lo com clareza, pronunciando até mesmo uma
maldição sobre todos que pervertessem sua verdade.
Cada
geração de cristãos, pelo poder do Espírito Santo, é responsável pela mensagem
do evangelho. Deus nos chama a guardar este tesouro que nos foi confiado. Se
quisermos ser fiéis mordomos, teremos de estar absorvidos no estudo do
evangelho, tomando grande cuidado para compreender as suas verdades,
comprometendo-nos a guardar o seu conteúdo. Ao fazê-lo, garantimos nossa
salvação, bem como a salvação daqueles que nos ouvem.
Como
sabemos comumente, a palavra Evangelho vem do
vocábulo grego euangélion, que é traduzida como “boas novas”. Num sentido, toda página
da Escritura contém o evangelho, mas em outro sentido, ele se refere a uma
mensagem muito específica — a salvação realizada para um povo caído, por meio
da vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Conforme
o bom prazer do Pai, o Filho eterno, que é um com o Pai e a exata representação
de sua natureza, deixou voluntariamente a glória do céu, foi concebido pelo
Espírito Santo no ventre de uma virgem, e nasceu o homem-Deus: Jesus de Nazaré.
Como homem, ele andou sobre a terra em perfeita obediência à lei de Deus. Na
plenitude do tempo, os homens rejeitaram-no e o crucificaram. Sobre a cruz, ele
carregou o pecado do homem, sofreu a ira de Deus, e morreu no lugar do homem.
Ao terceiro dia, Deus o ressuscitou da morte. Esta ressurreição é a declaração
divina de que o Pai aceitou a morte de seu Filho como sacrifício pelo pecado.
Jesus pagou a penalidade pela desobediência do homem, satisfez as demandas da
justiça e aplacou a ira de Deus. Quarenta dias após a ressurreição, o Filho de
Deus ascendeu ao céu e se assentou à destra do Pai, e foi-lhe dada glória
honra, e domínio sobre todas as coisas. Ali, na presença de Deus, ele
representa seu povo e intercede junto a Deus em seu favor. Deus perdoará
plenamente a todos quantos reconhecem seu estado de pecado e incapacidade, e se
lançam sobre Cristo, sendo por ele declarados justos e reconciliados a ele.
Este é o evangelho de Deus e de Jesus Cristo, seu Filho.
Um
dos maiores crimes cometidos pela presente geração de cristãos é a negligência
do evangelho, e é devido a essa negligência que nascem todos os nossos outros
males. O mundo perdido não é tão endurecido quanto é ignorante do evangelho,
porque muitos que proclamam sua mensagem também ignoram suas verdades mais
básicas. Os temas essenciais que compõem o próprio cerne do evangelho — justiça
de Deus, depravação total do homem, expiação pelo sangue, a natureza da
verdadeira conversão, e a base bíblica para a segurança da salvação — estão demasiadamente
ausentes dos púlpitos atuais. As igrejas reduzem a mensagem do evangelho a
algumas declarações do credo, ensinam que a conversão é apenas uma decisão
humana e pronunciam a segurança da salvação para qualquer um que tenha feito a “oração do pecador”.
O
resultado desse reducionismo evangélico tem sido de longo alcance. Primeiro,
endurece ainda mais o coração dos não convertidos. Poucos “convertidos” dos
dias modernos entram na comunhão da igreja, e os que o fazem, muitas vezes, se
desviam ou têm as vidas marcadas pela carnalidade habitual. Milhões sem conta
andam por nossas ruas e se assentam, não transformados pelo verdadeiro
evangelho de Jesus Cristo. No entanto, estão convencidos de sua salvação,
porque em dado momento de sua vida levantaram a mão em uma campanha
evangelística ou repetiram uma oração aceitando Jesus. Esse falso senso de
segurança cria uma grande barreira que, freqüentemente, isola estes indivíduos
de ouvir o verdadeiro evangelho.
Em
segundo lugar, tal evangelho deforma a igreja, fazendo com que, em vez de ser
um corpo espiritual de crentes regenerados, seja um ajuntamento de homens
carnais, que professam conhecer a Deus, mas o negam por suas obras. Com a
pregação do verdadeiro evangelho, os homens chegam à igreja, sem o entretenimento
evangélico, atividades especiais ou promessas de benefícios além daqueles
realmente oferecidos pelo evangelho. Aqueles que vêm o fazem porque desejam a
Cristo e tem fome da verdade bíblica, adoração de coração e oportunidades de
servir. Quando a igreja proclama um evangelho menor que isso, ela se enche de
homens carnais, que compartilham pouco interesse pelas coisas de Deus. Manter
tais pessoas é um fardo pesado para a igreja. A igreja então diminui o nível
das demandas radicais do evangelho para uma moralidade conveniente, e a
verdadeira dedicação a Cristo cede a atividades projetadas para suprir as
necessidades sentidas pelos seus membros. A igreja torna-se dirigida por
atividades ao invés de ser centrada em Cristo, e cuidadosamente filtra ou faz
novo pacote da verdade, a fim de não ofender a maioria carnal. A igreja deixa
de lado as grandes verdades da Escritura e do cristianismo ortodoxo, e o
pragmatismo (ou seja, aquilo que mantém a igreja em movimento e crescimento) se
torna a regra do dia.
Em
terceiro lugar, um evangelho desse tipo reduz o evangelismo a pouco mais que um
esforço humanista dirigido por estratégias de marketing sagazes,
baseadas nas últimas tendências da cultura. Após anos testemunhando a
impotência de um evangelho não bíblico, muitos evangélicos parecem convencidos
de que ele não vai dar certo, e que o homem de alguma maneira tornou-se um ser
complexo demais para ser salvo e transformado por mensagem tão simples e
escandalosa. Hoje em dia há maior ênfase em entender nossa cultura decaída e
seus modismos do que compreender e proclamar a única mensagem que tem o poder
de salvá-la. Como resultado, o evangelho é constantemente reapresentado, de
forma a caber na caixinha do que a cultura contemporânea considera mais
relevante. Esquecemos que o verdadeiro evangelho sempre é relevante a toda
cultura porque é a palavra eterna de Deus para todo homem.
Em
quarto lugar, um evangelho assim traz repreensão ao nome de Deus. Uma
proclamação diluída do evangelho faz com que os carnais e não convertidos
entrem na comunhão da igreja, e pela negligência quase que total do que seja
uma igreja bíblica, é permitido que eles permaneçam sem correção ou repreensão.
Isso mancha a pureza e reputação da igreja e é blasfêmia ao nome de Deus entre
os incrédulos. No final, Deus não é glorificado, a igreja não é edificada, os
membros não convertidos na igreja não são salvos, e a igreja tem pouco ou
nenhum testemunho ao mundo descrente.
Não
fica bem a nós, ministros ou leigos, estarmos tão próximos, vendo “o glorioso
evangelho de nosso bendito Deus” substituído por um evangelho de menor glória,
e não fazermos nada sobre isso. Como mordomos desta verdade, temos o dever de
recuperar o único evangelho verdadeiro e proclamá-lo com ousadia e clareza a
todos. Faríamos bem em atender as palavras de Charles Haddon Spurgeon:
Nestes
dias, sinto-me impelido a voltar repetidamente às verdades elementares do
evangelho. Em tempos de paz, talvez sintamos liberdade de fazer excursões aos
interessantes distritos da verdade que se encontram em campos distantes; mas
agora precisamos manter-nos em casa, guardando os corações e lares da igreja,
defendendo os primeiros princípios da fé. Na era presente, tem surgido na
própria igreja, homens que falam coisas perversas. Há muitos que nos perturbam
com suas filosofias e novas interpretações, com as quais negam as doutrinas que
professam ensinar, solapando a fé que têm compromisso de manter. É bom que
alguns de nós, que sabemos no que cremos, e não forjamos significados secretos
para nossas palavras, simplesmente batamos o pé e nos recusemos a tanto,
apresentando a palavra da vida, e declarando claramente as verdades
fundamentais do evangelho de Jesus Cristo.
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Fonte: Trecho do Livro “Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão”, do autor Paul Washer, lançamento da Editora Fiel de março. - Ministério Fiel

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